Queda média de 0,83% em julho contrasta com alta de 11,37% em equipamentos de informática e eletrônicos
MARCO DASSORI
@marco.dassori @jcommercio
A inflação média da indústria emendou um terceiro mês consecutivo de baixa, em julho. Os segmentos que lastreiam o PIM, contudo, foram na direção contrária. Conforme o IPP (Índice de Preços ao Produto), que não mede fretes e tributos, os preços médios ficaram 0,83% mais baixos em relação a junho. No mês anterior, o indicador do IBGE teve queda semelhante (-0,81%). O alívio nos preços foi puxado pela indústria extrativa (-4,38%), apesar do impasse na guerra do Oriente Médio. A indústria de transformação (+0,67%) -que é predominante no Polo Industrial de Manaus -teve contribuição mais tímida, em meio à explosão da demanda global por componentes para informática.
A variação dos preços de "porta de fábrica" veio em sentido inverso ao verificado na inflação oficial do mês. Medido pelo mesmo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IPCA pontuou elevação de apenas 0,07% em julho. No acumulado do ano, a cadência dos preços da indústria brasileira (+3,09%) já começa a mostrar menos força do que a verificada no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (+3,44%). Em um horizonte mais longo, no aglutinado dos 12 meses, a comparação é ainda mais favorável para o indicador da manufatura (+1,94% contra 4,44%, respectivamente), refletindo o cenário de acomodação após o conflito no Oriente Médio, entre outros fatores.
Entre junho e julho, 11 das 24 atividades industriais pesquisadas para IPP do IBGE reduziram a marcha dos preços, principalmente as de refino de derivados de petróleo e biocombustíveis (-5,65%) e produtos químicos (-4,49%). No outro extremo, a alta mais intensa veio da divisão de "equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos" (+11,37%). Entre os segmentos de participação no PIM, apenas o de produtos de borracha e material plástico (-0,86%) ajudou na redução mensal. Já os subsetores de "produtos de metal" (+1,02%), "máquinas e equipamentos" (+0,91%), bebidas (+0,69%), "máquinas aparelhos e materiais elétricos" (+0,05%) e "outros equipamentos de transporte" (+0,15%), entre outros, foram na direção contrária.
Pela perspectiva das "grandes categorias econômicas", o decréscimo mensal na indústria em geral foi induzido principalmente pelos bens intermediários (-1,83%), em mês de alta para os bens de capital (+2,75%). Os bens de consumo, que predominam no Polo Industrial de Manaus, tiveram redução mais modesta (-0,10%), com maior predominância dos bens de consumo duráveis (+0,37%) do que os semiduráveis e não duráveis (-0,05%). De janeiro a julho, os bens intermediários (+3,96%) sofreram maior encarecimento do que o verificado nos bens de capital (+2,84%) e os bens de consumo semiduráveis/não duráveis (+2,22%) e duráveis (+0,46%). Em 12 meses, a maior alva vem dos bens de capital (+3,70%).
Informática e eletrônicos
No texto de divulgação da pesquisa, postado no site da Agência de Notícias IBGE, o órgão de pesquisa ressalta que o choque verificado no preço médio dos "equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos" não encontra paralelo na série histórica do setor, iniciada em janeiro de 2010. Ao longo de quase dez anos, os preços acumularam alta de 43%, mas avançaram 11,37% somente n a passagem de junho para julho de 2026. "Foi a primeira vez que se observou uma variação de dois dígitos na comparação entre meses consecutivos. Em mais de 16 anos, a variação mais intensa registrada nos preços da atividade havia sido um aumento de 5,63%, na passagem de março para abril de 2020, durante a eclosão da pandemia de Covid-19", salientou.
De acordo com o IBGE, o aumento foi disseminado por toda a cadeia consumidora de memórias DRAM e NAND, in-sumos que sofreram forte reajuste no mercado internacional -a reboque, demais componentes eletrônicos e placas pressionaram o custo ao produtor. A alta coincidiu com a renovação de contratos de fornecimento de semicondutores e com a elevação dos preços internacionais de memórias e outros componentes eletrônicos. "Esse contexto ajuda a interpretar os reajustes observados nos segmentos de telefones celulares e computadores pessoais, cujos produtos estiveram entre as principais influências positivas da atividade no mês", pontuou.
O refino de petróleo e bio-combustíveis (-5,65%) retraiu pelo terceiro mês, a despeito do "movimento de preços menos intenso" em óleo diesel e "gasolina exceto para aviação". A indústria química (-4,49%) foi impactada pela "demanda internacional ainda desaquecida e in-sumos contratados a custos mais favoráveis" na petroquímica. A atividade de "borracha e plástico" (-0,86%) foi influenciada pelo alívio nas linhas de produção de "chapa/semelhante de plástico não alveolares e não reforçadas", "filmes de material plástico para embalagem", "sacos de material plástico para embalagem ou transporte" e "espumas de poliuretano". "O resultado de julho reforça a percepção de uma gradual normalização da atividade após as pressões de custos registradas ao longo do segundo trimestre", resumiu o IBGE.
“Custos pressionados”
Nas palavras do presidente da Fieam e vice-presidente-exe-cutivo da CNI, Antonio Silva, os resultados do IPP refletem uma assimetria entre o alívio macroeconômico nacional, puxado pela indústria extrativa, e a realidade do Polo Industrial de Manaus. "Segmentos fundamentais para a nossa matriz, como informática e eletrônicos, registraram altas expressivas. Isso evidencia que os custos de porta de fábrica continuam pressionados para a manufatura de bens duráveis e de capital, exigindo cautela frente à percepção de uma deflação generalizada", destacou.
No entendimento do dirigente, diante desse cenário, a conjuntura macroeconômica demanda prudência contínua. "A manutenção da taxa de juros em patamares elevados penaliza frontalmente o dinamismo do setor, limitando o crédito às famílias e o consequente escoamento da produção. Simultaneamente, a volatilidade global e as tensões geopolíticas mantêm as cadeias internacionais de suprimentos sob alerta, gerando incertezas sobre o custo dos insumos importados essenciais às nossas linhas de montagem", frisou.
Antonio Silva salienta que, no âmbito regional, a expectativa de uma estiagem extrema desponta como o principal vetor de risco para repiques inflacionários de curto prazo. "A restrição na navegabilidade impõe severos gargalos logísticos e encarece fretes, comprimindo margens e ameaçando o ciclo produtivo. Diante dessa confluência de desafios financeiros e operacionais, o cenário exige rigoroso planejamento de estoques e forte articulação institucional para preservar a competitividade da nossa indústria", alertou.
Para o contador, professor da Ufam e consultor empresarial com foco na indústria incentivada, André Costa, a tendência de curto prazo é a mesma. "Os números trazem alento. O PIM vinha sofrendo com o choque de preços na cadeia de hidrocarbo-netos, que afetou de modo mais forte o polo termoplástico, mas o índice do subsetor de refino e derivados teve queda razoável. O ponto de atenção vem do polo de bens de informática. A demanda por componentes não demonstra sinais de resfriamento e o mercado de consumo brasileiro segue aquecido. O Polo prossegue sendo um formador de preços no mercado, e deve ter de repassar essa diferença ao consumidor", concluiu.