Veículo: Jornal Folha de S.Paulo
Editoria: Economia
Tipo notícia: Reportagem
Página: 13
Data de publicacao: 08/04/2026
Origem da notícia: Iniciativa da mídia
Tipo de valoração: Espontânea
Categorias: Assunto de interesse

Projeções de inflação sobem com guerra no Irã, e El Nino traz risco para 2Q semestre

Tamanho do impacto da alta do petróleo sobre os preços dependerá da duração dos ataques; previsões apontam IPCA perto ou até acima do teto


Leonardo Vieeeli


rio de janeiro As projeções de inflação no Brasil passam por uma onda de revisões para cima devido aos impactos da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.


O conflito no Oriente Médio provocou um salto nas cotações do petróleo, pressionando o custo dos combustíveis.


Analistas também chamam a atenção para um risco adicional para a inflação brasileira: a ameaça do evento climático El Nino no segundo semestre. Dependendo de sua intensidade, o fenômeno pode dificultar a produção de alimentos, com efeitos sobre os preços.


De acordo com o boletim Focus, do BC (Banco Central), a mediana das previsões do mercado financeiro para o IPCA em 2026 subiu pela quarta semana consecutiva. A estimativa aumentou de 4,31% para 4,36%, ficando mais próxima do teto da meta de inflação, que é de 4,5%. A projeção vinha de um período de baixa no início deste ano, chegando a marcar 3,91% antes dos desdobramentos da guerra.


‘É um cenário de pressão de preços muito evidente e que mudou em relação a fevereiro", diz o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale, que projeta IPCA de 4,2% em 2026.


"Mesmo que a guerra acabe nas próximas semanas, demora até os preços do petróleo voltarem a patamares anteriores."


Nesta terça-feira (7), o presidente dos Estados Unidos, Do-nald Trump, recuou novamente e aceitou uma proposta feita pelo Paquistão para um cessar-fogo de duas semanas. O americano disse que sua decisão se baseou no compromisso de que o Irã reabra o estreito de Hormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial, durante a trégua.


O quadro preocupa o presidente Lula (PT) no ano eleitoral Na segunda (6), o governo anunciou uma subvenção extra para o óleo diesel e o gás de cozinha, além da decisão de zerar as alíquotas de PIS/Cofins sobre o biodiesel e o querosene de aviação. As medidas são uma nova tentativa do Executivo de conter a carestia dos combustíveis e das passagens aéreas.


Dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocom-bustíveis) indicam que, desde o início do confronto no Irã, os preços médios da gasolina comum e do diesel S-10 aumentaram 8% e 24% no Brasil, refletindo repasses promovidos principalmente por importadores privados. A Petrobras subiu o valor do diesel em suas refinarias, mas a alta foi arrefecida pela isenção de impostos federais.


Além do efeito nos combustíveis, há o temor de repasses para produtos como alimentos, já que o diesel é um dos insumos da cadeia produtiva. O transporte de fertilizantes, outra matéria-prima do agronegócio, também tem sido afetado pela guerra.


“É um cenário preocupante", afirma o economista Rodolpho Sartori, da agência classificado-ra de risco Austin Rating. Após o início do conflito, a estimativa da Austin para o IPCA deste ano saiu de 3,8% para 4,38%.


Há até quem aposte em uma inflação acima do teto de 4,5%. É o caso do economista Fábio Ro-mão, sócio da consultoria Logos Economia, que passou a prever IPCA de 4,8% em 2026. A estimativa era de 4% antes da guerra.


“Mesmo que o petróleo arrefeça até o final do ano, e a gente acha que [isso] é o mais provável, o mal já está feito. Atrapalhou a formação de muitos preços."


Outra instituição que revisou projeções é o Daycoval. A inflação estimada pela instituição para este ano subiu de 3,8% para 4,2%.


"Dado o cenário externo mais adverso com impactos potenciais sobre o petróleo e probabilidade crescente de El Nino no segundo semestre, adicionamos o viés de alta para esta projeção* disse o banco em relatório.


O El Nino é caracterizado pelo aquecimento anormal do Pacífico na região da linha do Equador. Tradicionalmente, aumenta o risco de seca nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, enquanto favorece chuvas intensas no Sul.


De acordo com analistas, o aumento nas previsões para a inflação pode reduzir a intensidade do ciclo de cortes na taxa básica de juros, que está em 14,75%.


O presidente do BC, Gabriel Ga-lípolo, defendeu na segunda (6) o que chamou de "cautela" na condução da política de juros. A fala ocorreu em discurso no qual abordou o cenário da economia global com os reflexos da guerra. Leia mais nas págs.




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