Veículo: Jornal do Commercio
Editoria: Economia
Tipo notícia: Reportagem
Página: A1-A7
Data de publicacao: 17/09/2026
Origem da notícia: Iniciativa da mídia
Categorias: Entidade de classe | FIEAM | Sindicatos Filiados a FIEAM
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Selic cai, mas mantém pressão na economia

JUROS O Copom decidiu continuar cortando gradualmente os juros básicos, no encontro encerrado na quarta (16), em face da desaceleração do PIB nacional. Mas, há dúvidas se vai continuar nesse caminho.

Selic cai, mas mantém pressão

Quinto corte consecutivo leva juros a 13,75%, mas cenário externo e riscos inflacionários deixam proximos passos incertosMARCO DASSORI @marco.dassori  @jcommercioO Copom decidiu continuar cortando gradualmente os juros básicos, no encontro encerrado nesta quarta (16), em face da desaceleração do PIB nacional. Mas, há dúvidas se vai continuar nesse caminho, por conta dos impactos da escalada no Oriente Médio e do 'super El Nino'. Em sua 281a reunião, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic novamente em 0,25 ponto percentual, como já era antecipado pelo mercado. A decisão foi unânime e posicionou a taxa em 13,75% ano. De olho na "inflação ainda acima da meta e riscos assimétricos para cima", manteve o modo de "serenidade e cautela", e evitou sinalizar o que fará no próximo encontro, marcado para 3 e 4 de novembro.Foi o quinto corte consecutivo da Selic, e o último antes da eleição, posicionando a taxa no mais baixo patamar, desde janeiro de 2025, embora as reduções tenham se mantido em 0,25 ponto percentual. Ainda assim, o levantamento do MoneYou mostra que o país subiu da segunda para a primeira posição no ranking mundial dos juros reais, com 8,45% ao ano, já eliminada a inflação. Rússia (6,79% a.a.) e Colômbia (6,33% a.a.) e Turquia (6,25% a.a.) aparecem logo em seguida, em uma lista de 40 nações. Um levantamento mais amplo da consultoria mostra que 72,56% dos 164 países analisados reduziram juros. A decisão deu pouco ânimo ao setor produtivo, que ainda se mostra preocupado com as futuras arbitragens do BC. Já os economistas se dividem.Em seu comunicado, o Co-pom manteve o tom de cautela dos pronunciamentos anteriores, frisando que o ambiente externo "permanece incerto", em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio, e da incerteza sobre a política monetária em "algumas economias avançadas". "Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities", assinalou. "O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", emendou, sem indicar até onde pretende levar a Selic.“Desaceleração produtiva”O presidente da Fieam, Antonio Silva, disse à reportagem que a redução de 0,25 p.p. frustrou a urgência do setor produtivo. "Embora o cenário geopolítico exija prudência, a manutenção de juros reais tão elevados asfixia a capacidade de investimento e inibe a modernização fabril. No Amazonas, os efeitos dessa política restritiva são criticamente agravados pela expectativa de uma nova vazante extrema, que encarece os fretes e traz o risco de desabastecimento. Tudo isso dilapida o fluxo de caixa das empresas, fragilizando a competitividade e inibindo avanços estratégicos na nossa bioeconomia. Para a próxima reunião, espera-se que o Copom pondere o risco de desaceleração produtiva e adote uma flexibilização monetária mais assertiva", frisou.O presidente da Associação Comercial do Amazonas, Bruno Pinheiro, também considerou que um corte maior seria desejável. "A redução da Selic é positiva, mas a taxa de 13,75% ao ano ainda representa um custo elevado para o crédito, o consumo e os investimentos. No Amazonas, somam-se a isso os elevados custos logísticos. Esperamos que, havendo espaço no cenário inflacionário, o BC (Banco Central) possa dar continuidade à redução gradual dos juros", ponderou.O presidente do Sinduscon--AM, Frank Souza, se mostrou mais entusiasmado. "Essa decisão do Copom vem dentro da tendência esperada, sendo que o ritmo está menor. Mas, essa redução é uma boa notícia, porque o mercado começa a ter tendência de taxa de juros e prestação mais baixas, favorecendo o incorporador e o comprador do imóvel. Esperamos que os juros continuem caindo, e particularmente não vejo ambiente para aumentos. O que deve influenciar muito é o resultado da eleição. Vamos guardar", ressaltou.O presidente da Faea, Muni Lourenço, vai na mesma direção. "Consideramos acertada a decisão, porque o Brasil ainda tem taxa básica de juro muito elevada e é fundamental a redução para patamar que permita principalmente a redução dos custos de financiamento da atividade produtiva", asseverou.“Cenário de instabilidade”A ex-presidente do Corecon--AM e professora do departamento de Economia da Ufam, Michele Lins Aracaty e Silva, considerou que a decisão do Copom foi correta. "A economia brasileira ainda mostra instabilidade, diante de um ambiente de conflitos e 'tarifaço'. E chamo a atenção para o cenário ligado às eleições. A queda na taxa de juros possibilita mais equilíbrio e expectativa de crescimento, embora, embora também deva ser levada em consideração a externalidade negativa da vazante. E há a possibilidade de novas quedas gradativas nas próximas reuniões do Copom, até chegarmos a um patamar bem mais interessante, a partir de 2027", analisou.No entendimento do também ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Júnior, a decisão do Copom levou em consideração principalmente a conjuntura deflacionária do IPCA e da perda de força do PIB, ao longo de 2026. Mas, o economista lança dúvida a respeito de novos cortes. "Os juros altos também vem penalizando o governo, porque encarece a dívida pública. Mas, não podemos também descartar que o Fed aumentou os juros nos EUA. O que vamos nos próximos meses é uma subida do dólar e isso também pode nos prejudicar, haja vista que os juros ainda estão muito altos, no Brasil. São dados que provavelmente não vão nos ajudar na próxima reunião do Copom" avaliou.Já a consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, disse que a redução foi tímida e deve continuar assim. "O governo está querendo voto, mas só baixa 0,25 p.p. O cenário deve continuar indefinido, enquanto não houver uma nova definição na política norte-americana, após as eleições de meio de mandato. Continuo argumentando que 13,75% de Selic ao ano ainda é muito alto. O Co-pom poderia ter diminuído mais, porque os juros já estão recaindo nos investimentos. Ou seja, o remédio para combater a inflação está matando o paciente. Precisamos crescer e gerar empregos", arrematou.