Veículo: Jornal A Crítica
Editoria: Tema do dia
Tipo notícia: Reportagem
Página: A1-A3
Data de publicacao: 17/09/2026
Origem da notícia: Iniciativa da mídia
Categorias: Assunto de interesse
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Renda sobe, mas 62% precisam fazer ‘bicos’

EM MANAUS RAIO-X DO MERCADO DE TRABALHO Pesquisa aponta aumento na renda e avanço na escolaridade dos trabalhadores em relação aos pais, mas a maioria precisa fazer atividades extras para sustentar os lares. Dados Os dados são da pesquisa “Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social”, realizada em dez capitais 86% Esse é o percentual dos trabalhadores de Manaus entrevistados que consideram a alimentação como o item de maior peso no orçamento doméstico Atividades Entre os bicos dos manauaras estão serviços gerais (18%), venda de roupas e artigos usados (18%), trabalhos manuais (10%), revenda de cosméticos e produtos de beleza, venda de alimentos caseiros (8%) e motorista ou entrega por aplicativo (7%)

Renda melhora, mas 62% têm que fazer bicos

Mobilidade social> ManausPesquisa 'Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social’ mostra que, em Manaus, 62% dos trabalhadores tiveram que recorrer a uma atividade extra para complementar a renda. Queda de 7 pontos em relação a2025, quando 69% declararam recorrer aos 'bicos’.SondagemForam entrevistadas 3.500 pessoas em Manaus, Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.18%dos manaurasÉ a percentual dos que disseram que a renda pessoal aumentou, contra 12% em 2025.Pesquisa mostra, em Manaus, aumento na renda e avanço na escolaridade em relação aos pais, mas 63% veem alta da pobrezaOMAR GUSMÃOeconomia@acritica.comNos últimos 12 meses, 62% dos trabalhadores de Manaus tiveram que recorrer a uma atividade extra para complementar a renda. Apesar de alto, o índice representa uma retração de 7 pontos em relação a 2025, quando 69% declararam ter tido que valer-se dos “bicos” ou “freelas” para engordar o orçamento.Os dados são da pesquisa “Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social”, realizada em dez capitais que mostra a percepção da população sobre temas como renda, orçamento doméstico, moradia e escolaridade.O levantamento entrevistou 3.500 pessoas de forma online em Manaus, Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvadore São Paulo.Apesquisa é uma realização do Instituto Cidades Sustentáveis e da Ipsos-Ipec, com apoio da Fundação Grupo Volkswagen e cofinanciamento da União Europeia.Entre as atividades extras desempenhadas pelos manauaras para complementar a renda estão bicos de serviços gerais (18%), venda de roupas e outros artigos usados (18%), trabalhos manuais (10%), revenda de cosméticos e produtos de beleza, produção de alimentos em casa para vender (8%) e bicos de motorista ou entrega por aplicativo (7%).GANHO AMPLIADOUm outro dado que chama a atenção na participação dos ma-nauaras na pesquisa é que 18% dos manauaras disseram que sua renda pessoal aumentou nos 12 meses anteriores, contra 12% em 2025. Ao mesmo tempo, a parcela que percebeu queda da renda caiu de 38% para 30%. Já os que consideram que a renda permaneceu estável foram de 48% para 47%.Ou seja, Manaus teve uma melhora de 6 pontos percentuais na percepção de aumento da renda e uma queda de 8 pontos na percepção de redução. A própria pesquisa destaca Manaus como a capital onde a percepção de perda de renda mais recuou.O coordenadorde relações institucionais do Instituto Cidades Sustentáveis, Igor Pantoja, pontua que os dados são complementares. E que Manaus, entre as 10 capitais sondadas, foi a que teve o maior índice de mudança de percepção no espaço de um ano.“Tem, por um lado, essa redução do percentual de pessoas que dizem que precisaram recorrer a atividades extras, a fazerbicos, no último ano, para complementar a renda. Dentre as dez capitais, Manaus é a que mais teve um recuo, uma diminuição nesse percentual de pessoas que buscaram outras atividades”, aponta.Por outro lado, Igor indica que o percentual de pessoas que acreditam que houve aumento da renda, é bem próximo do percentual de pessoas que não precisaram mais fazer bico. “No mesmo sentido, eu diria, coincidentemente, tem uma percepção maior do aumento da renda do ano passado para esse ano. Então, dentre as dez capitais, percentualmente, Manaus é a que mais mudou a percepção entre 2025 e 2026”, declara.“Ano passado, 12% das pessoas acreditavam ter tido aumento da renda no último ano e, neste ano, 18% afirmaram isso. Então, isso provavelmente está relacionado com essa menor quantidade de pessoas que precisam buscar atividades extras e fazer bicos para complementar a renda”, explica.ALIMENTAÇÃOQuando o tema é o peso da alimentação no orçamento das famílias, 86% dos manauaras acreditam que trata-se de uma das despesas que mais impactam o orçamento doméstico. Em 2025, eram 83%. E aqui, surge mais uma peculiaridade intrigante de Manaus: é a capital sondada onde mais cresceu o consumo de praticamente todos os alimentos, mas também registra índices altos de redução do consumo de carnes, frutas, legumes e laticínios.Porexemplo, 33% aumentaram o consumo de carne, mas 38% reduziram. Entre frutas, legumes e verduras, 32% aumentaram e 34% reduziram. O consumo de ovos, por outro lado, cresceu bem mais (42%) do que diminuiu (18%). Já o de laticínios ficou praticamente empatado: cresceu 28% e diminuiu 29%.Igor Pantoja destaca que trata-se de mais um indicador que comprova a percepção econômica positiva de Manaus no último ano. “Quando a gente olha essa questão das mudanças no consumo de alimentos, é interessante ver, porque Manaus, como a gente já tinha falado, tem um aumento da percepção de que a renda aumentou no último ano, tem uma redução das pessoas que afirmam ter a necessidade de fazer bicos, e mesmo olhando aqui para o consumo de alimentos, dentre as 10 capitais, a gente vê que Manaus é onde mais aumentou o consumo de vários alimentos que em outras cidades tem diminuído”, analisa.Igor destaca que aumentou o consumo de frutas, verduras, legumes, de carne bovina, suína ou de frango, também de arroz, feijão e também de ovos. “Então, tem um aumento em geral do consumo desses alimentos em Manaus, enquanto em outras cidades aparece mais a diminuição por conta desse peso no orçamento. Então, é interessante ver que Manaus tem, de alguma maneira, uma perspectiva positiva no último ano, economicamente”, pontua.Saiba mais>>Melhora individualMestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Vitor Hugo acredita que o que se vê em Manaus é um cenário em que existem sinais de melhora individual, mas a percepção coletiva continua marcada pela presença visível da pobreza e pelas dificuldades enfrentadas por uma parcela importante da população. “Isso nos mostra que crescimento de renda e percepção da redução da desigualdade nem sempre acontecem na mesma velocidade, especialmente em contextos urbanos, em que pessoas em situação de rua ou altas densidades de moradias precárias contribuem para reforçar essa percepção”, ensina.Percepção sobre a fome aumentouEm contraste com a perspectiva positiva apontada por Igor Pantoja, a percepção de aumento da fome e da pobreza continua alta. Para 63% dos entrevistados aumentou o número de pessoas em situação de fome e pobreza na cidade. O percentual é resultado da soma das respostas “aumentou muito” e “aumentou um pouco”. Apenas 8% disseram perceber a diminuição.No conjunto das dez capitais sondadas, o aumento é percebido por 59% e a diminuição por 12%. Portanto, Manaus está acima da média das capitais na percepção de aumento da fome e da pobreza. Mais uma peculiaridade de Manaus: uma aparente contradição entre uma percepção mais positiva da renda pessoal e uma percepção ainda tão elevada da pobreza.Para o diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen, Vitor Hugo Néia, a pesquisa mostra que renda individual e percepção de pobreza não são a mesma coisa. “Em Manaus, observamos melhora na percepção econômica individual: 18% dos entrevistados disseram que sua renda aumentou em relação ao ano anterior; em 2025, essa melhoria tinha sido notada por apenas 12% dos entrevistados”, aponta.“Foi a capital brasileira com maior avanço percentual entre uma pesquisa e outra. Também foi a cidade pesquisada em que mais diminuiu a proporção de pessoas que precisaram recorrer a atividades extras para complementar a renda. Mas isso não significa que as famílias tenham recuperado plenamente seu poder de compra ou que a vulnerabilidade social tenha diminuído de forma visível”, destaca Vitor Hugo.Ele indica que, enquanto 63% dos entrevistados ainda percebem aumento da fome e da pobreza na cidade, a alimentação continua sendo o principal fator de pressão sobre o orçamento familiar.Escolaridade maior que a dos paisQuando sondados sobre seu nível de escolaridade em comparação ao de seus pais, 77% dos consultados em Manaus disseram ter alcançado nível de escolaridade superior ao dos pais, contra 71% na rodada anterior, um crescimento de 6 pontos percentuais. Este é um dos avanços destacados pela pesquisa.Já quando o assunto abordado foi renda, a mobilidade se mostrou bem menor: 47% dos manauaras disseram ter renda superior à dos pais quando eles tinham a mesma idade.O percentual era de 47% também na rodada anterior. Portanto, ficou estável. Na moradia, 54% afirmaram estarem condição melhor que a dos pais, contra 51% anteriormente.Para o mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP),VitorHugo, esse é um dos achados mais importantes de toda a pesquisa, que, segundo ele, se reproduz nas diferentes capitais pesquisadas. “Manaus apresenta um resultado muito positivo em mobilidade educacional: 77% dos entrevistados afirmam ter alcançado um nível de escolaridade superior ao dos pais. Isso mostra que houve avanços importantes no acesso à educação ao longo das últimas décadas”, pontua.“Por outro lado, quando olhamos para a renda, apenas 47% dizem estar em situação melhor do que a dos pais quando tinham a mesma idade. Esse descompasso revela que a educação continua sendo uma condição necessária para a mobilidade social, mas já não é suficiente por si só”, afirma.Vitor Hugo destaca que a pesquisa mostra que existe um desafio crescente de conexão entre educação e oportunidades econômicas concretas. “A grande maioria das pessoas estudou mais do que seus pais, mas enfrenta um mercado de trabalho mais competitivo, transformações tecnológicas aceleradas e um custo de vida cada vez mais elevado”, aponta.O mestre em História Social indica que o desafio atual não é apenas ampliar a escolaridade, mas também fortalecer a inclusão produtiva, criando caminhos para que as pessoas consigam transformar conhecimento em trabalho, renda e melhoria efetiva da qualidade de vida. “Na prática, isso passa por qualificação alinhada às demandas do mercado, formação para profissões do futuro, apoio ao empreendedorismo, acesso a redes de empregabilida-de e fortalecimento dos pequenos negócios”, ensina.Segundo o especialista, a pesquisa reforça que a educação continua abrindo portas, mas é preciso garantir que existam oportunidades suficientes do outro lado. “O grande desafio para Manaus e para o Brasil é fazer com que o avanço educacional se traduza de forma mais consistente em prosperidade socioeconômica e mobilidade social para as famílias”, defende.