Veículo: Jornal do Commercio
Editoria: Economia
Tipo notícia: Artigo
Página: A5
Data de publicacao: 21/08/2026
Origem da notícia: Iniciativa da mídia
Categorias: CIEAM
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A Terra Prometida da Floresta. A utopia amazônica em construção

“Por ocasião da abertura especial de “Judeus na Amazônia’’, no dia 28 próximo, revisitamos uma travessia de mais de dás séculos que transformou diáspora em pertencimento e ajudou a construir uma Amazônia de encontros, trabalho e cooperação. Da chegada dos judeus sefarditasà floresta ao pensamento deSa-muel Benchimol e às novas experiências de inovação e desenvolvimeito, a antiga busca pe/a Terra Prometida reaparece como construção coletiva de futuro".Os Benchimol-Álbum de família Por Alfredo Lopes -BrasilAmazoniaAgora - Follow Up 21.08.2026As vésperas de um encontro dedicado à presença judaica na Amazônia, vale olhar para essa história como algo que continua acontecendo. Ha mais de dois séculos, homens e mulheres atravessaram oceanos, penetraram rios, construíram famílias, casas comerdais e comunidades e, pouco a pouco, dd-xaram de ser estrangeiros diante da floresta. A Amazônia os transformou enquanto também era transformada por eles.A expressão Terra Prometida, neste contexto, tem história. Samuel Benchimol recorrería à ideia da Eretz Amazônia para interpretar a travessia dos judeus marroquinosqueencontraram na região possibilidade de liberdade, trabalho e reconstrução da vida.A metáfora merece ser retomada hoje por uma razão adidonal. Aquela Terra Prometida nunca chegou pronta.Predsou ser construída.Da Península Ibérica aos rios amazônicosA história começa muito antes da chegada ao Amazonas.A perseguição aos judeus na Península Ibérica, as expulsões do final do século XV e os deslocamentos posteriores espalharam comunidades sefar-ditas pelo Mediterrâneo e pelo norte da África. O Marrocos tomou-se um dos lugares onde essa memória sobreviveu durante séculos.Quandoas transformações políticas e econômicas do século XIX abriram novas possibilidades no Brasil, famílias judaico-marroquinas começaram a atravessar o Atlântico em direção à Amazônia.Belém foi uma das principais portas. Manaus, outro polo importante Dali, muitos seguiram pelos riosForam para Santarém, Óbidos, Parintins, Itacoatiara, Tefé e tantas outras localidades nas quais comérdo, navegação e extrativismo constituíam a economia possível.É importante observar a geografia dessa história.Os rios fizeram o papel que hoje cabe às redes digitais. Transportavam mercadorias, informações, notícias, crédito e confiança. O comerciante precisava conhecer distâncias, cheias, vazantes, comunidades, fornecedores e compradores. Precisava aprender a Amazônia.E precisou aprender também a pertencer.A adaptação foi tão profunda que a literatura histórica registra a figura singular dos chamados judeus-cabo-dos. Famílias preservaram elementos de sua religião e memória enquanto incorporavam alimentação, hábitos, linguagem e modos de viver profundamente amazônicos.Sinagogas permaneceram. Cemitérios permaneceram. Sobrenomes permaneceram.Mas permaneceu sobretudo uma cultura de comunidadeE difícil compreendera contribuição judaica à Amazônia apenas pda contabilidade das empresas que criou ou das atividades comerdais que desenvolveu. Sua influênáa atravessa educação, filantropia, áênda, cultura, instituições e maneiras de organizar relações de confiança.Essa é uma história de integração.Samuel Benchimol e a transformação da experiência em pensamentoAlgumas gerações depois daquda travessia, essa experiênda amazônica produziría um de seus intérpretes mais importantes.Samuel IsaacBenchimol nasceu em Manausem 1923. Professor, economista, pesquisador, empresário e líder comunitário, dedicou praticamente toda sua vida intelectual a pergunta que ainda nos acompanha: como desenvolver a Amazônia sem destruí-la e sem condenar seus habitantes à pobreza?Sua resposta adquiriu uma smplicidade desconcertanteO desenvolvimento amazônico deveria ser economicamente viávd, ecologicamente adequado, politicamente equilibrado e sodalmente justo.Quatro condições simultâneas.A importância dessa formulação talvez seja ainda maior hoje do que quando foi concebida. Samuel compreendeu que nenhuma variávd poaeria ser retirada da equação. A floresta sem o homem produziría uma conservação sodalmente frágil. A economia sem ecologia consumiría o patrimônio que lhe da sustentação. A justiça sodal sem  atividade econômica permanecería dependente. Enenhuma dessas dimensões sobrevivería sem equilíbrio político e institudonal.Estava aliuma espédede algoritmo amazônico da sustentabilidadeMáodo, meta e oráculo.Samuel transformou a experiênda histórica de adaptação em pensamento sobre desenvolvimento.E deixou uma pergunta para as gerações seguintesComo atualizar aqueles quatro paradigmas quando o mundo muda?Da sustentabilidade à regeneraçãoE nesse ponto queDerás Benchimol Minev começa a interessar particularmente a esta história.Não porque seja proprietário dessa tradição. Uma tradição com dois séculos de história não pertence a ninguém.Denis interessa porque sua atuação permite observar uma tentativa contemporânea de decodificação do pensamento do avô.Os vocábulos mudaram.Bioeconomia. Empreendedorismo. Startups. Qênda aplicada. Economia regenerativa. Infraestrutura. Inteligên-da artifidal. Cooperação intemadonal. Restauração produtiva.Por trás deles, entretanto, reaparece a mesma pergunta.Como criar prosperidade mantendo a Amazônia viva?O interessante é observar onde essa busca está acontecendoEla aparece na aproximação entre empresaseuniverádades; em inidativas de empreendedorismo; na foimação de redes com pesquisadores; na discussão sobre restauração produtiva; na conexão com centros intemadonais de tecndogia; em inidativas de conservação e conhecimento como o Museu da Amazônia; na tentativa de aproximar capital, dênda e problemas concretos da região.Surge ainda uma característica que merece atenção especial.A cooperação.A complexidade amazônica parece ter convenddo uma nova geração de atores de que ninguém possui sozinho conhecimento, recursosou legitimidade suficientes para transformá-la.Empresa precisa de ciência.Ciência precisa dialogar com sociedade e mercado.Empreendedor predsa de capital e meritória.Tecnologia precisa compreender o território.Comunidades predsam partidpar das dedsões que modificam suas vidas.Estado, inidativa privada e sode-dade civil predsam aprender foimas mais maduras de complementaridade.A utopia começa a adquirir a forma de uma redeItacoatiara e uma pequena janela para o futuroTalvez uma das imagens mais bonitas dessa transformação esteja hoje no segundo andar de uma loja aa Bemol em Itacoatiara.Embaixo fundona o varejo.Em cima, jovens aprendem programação, engenharia de software; analise de dados e intdigênda artifidal.É o Talertt LahA escolha do interior é importante para compreender o experimento.Durante gerações, uma parcda dos jovens amazônicos predsou partir para crescer. O interior formava pessoas que posteriormente perdia para Manaus; Manaus, por sua vez, formava talentos que muitas vezes partiam para outras regiõesA geografia econômica empurrava a inteligênda para longe de sua origem.A conectividade começa a permitir outra equação.Um jovem pode morar em Itacoa-tiara e trabalhar para uma organização localizada a milhares de quilômetros. Pode partidpar da economia mundial do conhecimento permanecendo às margens do Amazonas.O trabalho atravessa oceanos.O trabalhador permaneceHá algo extraordinariamente coerente com a história que estamos contando.Dds séculos atrás, os rios pemriti-ram que famílias judaicas estahríeddas nointerior amazônico partidpassem de redes comerciais muito maiores que suas pequenas localidadesAgora a fibra óptica e a computação fazem movimento semelhante com o conhecimento.Mudou a infraestrutura da conexão.Permaneceu a capaddade amazônica de construir redes.E talvez esteja justamente aqui uma atualização radical dos quatro paradigmas de Samuel Benchimol.Um jovem trabalhando com ciência de dados em Itacoatiara gera atividade econômica, adquire conhecimento, permanece próximo de sua família, movimenta a economia local e reduz a pressão migratória sobre ManausDesenvolvimento econômico e desenvolvimento humano começam a conversar.A Terra Prometida reaparece; portanto, sob uma forma inesperada.Como oportunidade ae permanecer.Uma utopia sem proprietárioE predso algum cuidado com a palavra utopia.Ela costuma sugerir um lugar inexistente.Aqui estamosusando-a em sentido diferente.Estamos procurando sinais de um lugar possível.Eles aparecem em Itacoatiara, nas startups amazônicas, nos laboratórios, nas universidades, nas empresas, nos institutos de pesquisa, nas comunidades, nos projetos de restauração, nos empreendedores da bioeconomia e nas articulações intemadonais.Não formam ainda um sistema perfeitamente coordenado.Talvez jamais formem.Sodedadesvivasavançam também porexperimentação, divergênda, tentativa e correção.O que começa a aparecer é uma direção compartilhada.Uma Amazônia capaz de produzir conhecimento, prosperidade e conservação ao mesmo tempo.É importante que essa construção permaneça aberta.A Terra Prometida amazônica não pode ter proprietários.Predsa de participantes.Judeus e não judeus. Povos indígenas e comunidades tradicionais. Gentistaseempresários. Trabalhadores e empreendedores. Universidade e indústria. Poder público e sodedade dvil. Jovens do interior e pesquisadores dos grandes centros mundiais.A própria história judaica na Amazônia oferece uma lição sobre isso.Pertencer não exigju permanecer igual.Foi necessário dialogar com o lugar.A identidade sobreviveu justamente porque soube estabelecer relações, adaptar-se, criarvínculosecompartilhar destinos.O encontro do dia 28 e a história que ainda está sendo escritaE com esse espírito que deveriamos chegar ao encontro do próximo dia 28.Para celebrar memória, certamente.Para reconhecer uma contribuição histórica quemerecesermaisconhedda pelo Brasil.Mas também para conversar sobre aquilo que ainda podemos construir juntos.O Brasil Amazônia Agora pretende acompanhar essa conversa com particular interesse porque reconhece nela algo profundamente ligado à sua própria razão de existir encontrar caminhos de desenvolvimento capazes de reconciliar economia, ciência, sociedade e floresta.Nosso papel pode ser ajudar a construir uma cartografia dessa Amazônia emergente.Identificar experiências. Conectar pessoas. Organizar conhecimento. Comparar soluções. Antecipar agendas. Dar visibilidade ao que funciona.E manter abertas as pontes entre mundos que ainda conversam menos do que deveríam.Talvez seja essa a contribuição mais fiel que podemos oferecer à tradição que Samuel Benchimol ajudou a sistematizar.Não transformar seu pensamento em monumento.Usá-lo.Submetê-lo aos problemas contemporâneos. Atualizá-lo com ciência. Testá-lo na economia. Confrontá-lo com as necessidades das comunidades. Colocá-lo em diálogo com jovens que programam computadores em Itacoatiara e com pesquisadores que procuram respostas para alguns dos maiores problemas ambientais do planeta.A história começou muito antes de nós.Com famílias que atravessaram o Atlântico e depois penetraram os rios amazônicos procurando liberdade e possibilidade.A viagem continua.A antiga Terra Prometida ofereceu acolhimento.A nova dedicou-se a oferecer oportunidades.E a melhor homenagem aos que chegaram seja ajudar aqueles que nasceram aqui a construiruma Amazônia da qual já não precisem partir para encontrar futuro.Abertura da Exposição*"Judeus na Amazônia" a Manaus*, no Instituto Cultural Brasil -Estados Unidos (ICBEU) no dia 28 de agosto, às 16h30.(*) Follow é publicada sob a responsabilidade do QEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Commercio  do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal https;//brasilamazo-niaagora.com.br*esta Coluna é publicada as quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes, cieam@cieam.com.br