PATRÍCIA LIA BRENTANOFundadora do Instituto PORTaopiniao@portalbenews.com.brEstratégiaA cabotagem, transporte marítimo de cargas entre portos de um mesmo país, ainda enfrenta entraves que limitam seu pleno desenvolvimento no Brasil.Em um país com mais de 8 mil quilômetros de costa, o modal deveria ser protagonista na logística nacional. No entanto, a operação segue marcada por custos elevados, burocracia excessiva e falta de integração sistêmica com os demais modais.Em mercados mais maduros, a cabotagem é tratada como parte essencial da estratégia logística. Não se trata apenas de incentivo econômico, mas de remoção de barreiras operacionais. A lógica é simples: se a carga é doméstica, ela deve circular com a mesma fluidez de um transporte rodoviário — e não ser tratada como uma operação internacional.No Brasil, porém, ainda há distorções relevantes. Um exemplo emblemático é a exigência de escaneamento de contêineres em operações de cabotagem, procedimento que encarece e retarda o fluxo logístico mesmo quando se trata de carga nacional, sem qualquer alteração de jurisdição aduaneira. Soma-se a isso a multiplicidade de documentos, sistemas não integrados e exigências redundantes, que aumentam o custo operacional e reduzem a competitividade do modal.Em diferentes regiões do mundo, o caminho adotado foi outro.A simplificação documental é um dos pilares mais relevantes. Processos digitais integrados, eliminação de exigências duplicadas e tratamento diferenciado para cargas domésticas permitem que a cabotagem opere com previsibilidade e eficiência. Em muitos casos, o fluxo documental se aproxima mais de uma operação rodoviária do que de um embarque internacional.Outro fator determinante é a previsibilidade operacional. Portos eficientes reconhecem que a cabotagem, especialmente quando estruturada em linhas regulares, depende de confiabilidade.Por isso, organizam janelas operacionais compatíveis com essa necessidade, garantindo que atrasos não comprometam toda a cadeia logística.Nesse ponto, cabe uma reflexão importante no contexto brasileiro.O sistema portuário nacional já admite, na prática, prioridades operacionais diferenciadas quando há interesse público claramente identificado. Navios de passageiros, por exemplo, frequentemente possuem prioridade de atracação em relação a outras embarcações, em razão do impacto direto sobre pessoas, turismo e logística urbana. Trata-se de uma escolha operacional legítima, baseada em critérios de política pública.A cabotagem poderia ser analisada sob lógica semelhante. Ainda que não envolva transporte de pessoas, seu impacto econômico e logístico é significativo: redução de custos, menor emissão de poluentes e alívio da infraestrutura rodoviária. A discussão, portanto, não deveria ser se a cabotagem deve ou não competir com o longo curso por berço, mas sim se faz sentido estruturar o sistema portuário para garantir sua previsibilidade operacional. Um ou dois dias de atraso na atracação podem inviabilizar o transporte da carga na navegação de cabotagem, já no longo curso, diluído em viagens que podem chegar a quarenta dias, esse mesmo atraso é praticamente irrelevante.Isso não significa criar privilégios indiscriminados, mas reconhecer que determinados serviços — especialmente os regulares — exigem estabilidade para funcionar. A previsibilidade, nesse contexto, pode ser tão ou mais relevante do que a prioridade formal.Além disso, há incentivos econômicos e ambientais amplamente adotados no cenário internacional. Redução de tarifas portuárias, simplificação regulatória, estímulos fiscais e políticas voltadas à descarbonização são instrumentos recorrentes. A cabotagem é vista como aliada estratégica na transição energética e na eficiência logística.No Brasil, o avanço da cabotagem passa, necessariamente, por essa agenda de transformação. Reduzir a burocracia, revisar exigências que não agregam valor à segurança da operação, integrar sistemas e criar condições de previsibilidade são medidas mais eficazes do que simplesmente discutir prioridade formal de atracação de forma isolada.A cabotagem não precisa de privilégios — precisa de racionalidade operacional. Quando tratada como parte da solução logística, e não como exceção regulatória, ela deixa de ser uma alternativa e passa a ocupar o papel que sempre deveria ter tido: o de eixo estruturante da competitividade do País.Patrícia Lia Brentano escreve para o BE News quinzenalmentePORTOS EFICIENTES RECONHECEM QUE A CABOTAGEM, ESPECIALMENTE QUANDO ESTRUTURADA EM LINHAS REGULARES, DEPENDE DE CONFIABILIDADE. POR ISSO ORGANIZAM JANELAS OPERACIONAIS COMPATÍVEIS COM ESSA NECESSIDADE, GARANTINDO QUE ATRASOS NÃO COMPROMETAM TODA A CADEIA LOGÍSTICA