Levantamentos da Conab e do IBGE apontam crescimento menor e queda de produtividade em culturas estratégicas no AmazonasMARCO DASSORI@marco.dassori @jcommercioPesquisas da Conab e do IBGE confirmam um quadro de desafios para a produção de grãos no Amazonas. Em seu sexto levantamento mensal para a safra de 2025/2026, divulgado neste mês, a Conab reduziu suas projeções. O cálculo indica alta de 13,1%, de 86.500 para 97.800 toneladas. A estimativa anterior da Companhia Nacional de Abastecimento era de uma alta de 17,3% e 101.500 toneladas. Arroz (+36%) e soja (+20,4%) ainda aparecem com taxas positivas e o feijão (0%) segue estável, mas o milho (-13,3%) trocou de sinal.A ampliação da área de plantio (+14,7% e 32.800 hectares) deve ser menor, assim como a queda na produtividade (-1,4% e 2.982 quilogramas por hectare).O Estado comparece com a quinta maior taxa de expansão de safra, em um grupo de 17 unidades federativas com prognóstico positivo. A maior elevação ainda vem do Ceará (+65,9%), enquanto a queda mais significativa continua em Alagoas (-24,7%), em um cenário de virtual estagnação para a média nacional (+0,3%). Caso a projeção seja confirmada, o Estado terá marcado um ano de retomada, após a queda anterior. A taxa de elevação esperada, no entanto, não seria suficiente para repor integralmente a perda da safra de 2024/2025 (-16% e 86.500 toneladas) -que havia marcado o primeiro declínio na atividade desde o biênio de 2021/2022Já o LSPA (Levantamento Sistemático da Produção Agrícola), do IBGE, que mede o desempenho de um leque maior de produtos em 'ano cheio', mostra um quadro mais negativo para o Amazonas. O grupo de "cereais, leguminosas e oleaginosas", que reúne as quatro culturas citadas, aparece com decréscimo de 19,2%, não passando de 60.101 toneladas. Se concretizada, a diminuição eliminará parte substancial do aumento de 2025 (+41,1% e 71.644 toneladas). As baixas vêm principalmente do milho (-59,5% e 15.655 toneladas), mas incluem também feijão (-23,8% e 1.046) e arroz (-0,5% e 15.655), enquanto a soja (35.820) aparece com estabilidade.De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, há prognóstico de queda também para a área plantada de "cereais, leguminosas e oleaginosas" no Amazonas (-16,4% e 21.515 ha), na base anual. As culturas desse grupo que mais sofrem com esse recuo, na ordem, também são milho (-58,6%), feijão (-24,5%) e arroz (-0,6%), sendo que a soja também aparece sem alterações nesse quesito. Os impactos são sentidos no rendimento médio que aparece zerado para o arroz e a soja, e negativo para milho (-3,5%) e feijão (-1,9%).Produtividade e climaO levantamento da Conab mostra que a taxa de expansão de 14,7% para a área de plantio de grãos no Amazonas na safra de 2025/2026 (32.800 hectares) ainda é a maior do país. O indicador é puxado também pelo arroz (+32,6% e 6.100 ha) e pela soja (+31,1% e 17.700 ha), em detrimento do feijão (-13,6% e 1.900) e do milho (-14,5% e 7.100). Em contrapartida, a produtividade (2.959 quilogramas por hectare) sinaliza recuo menor (-2,2%), com queda para a soja (-8,1% e 3.060 kg/ha), mas não para o arroz (+2,8% e 3.344 kg/ha), o milho (+1,2% e 3.041 kg/ha) e o feijão (+11,8% e 817 kg/ha).No texto do sexto levantamento para a safra 2025/2026, a Conab informa que as chuvas de fevereiro foram acima de 150 milímetros na maior parte do país, embora o "extremo Norte" da Região Norte tenha registrado precipitações abaixo dos 120 mm e níveis de umidade de solo mais reduzidos. "Mas, em grande parte da região Norte, os volumes de chuva foram superiores a 150 mm e os maiores volumes concentraram-se no Amapá, leste do Amazonas, centro-Norte do Tocantins, além das porções Nordeste e Sudoeste do Pará. Este cenário contribuiu para manutenção dos níveis de umidade do solo", analisou.O texto assinala que as previsões climáticas para os próximos três meses, de acordo com o modelo do Inmet, indicam a ocorrência de chuvas acima da média na maior parte da região Nordeste, Norte da região Cen-tro-Oeste e Sul da região Norte. Chuvas abaixo da média são previstas para o Sul das regiões Centro-Oeste e Sudeste, além da região Sul. "Analisando separadamente cada região do país, a previsão indica chuvas acima da média na porção central do Amazonas, Centro-Sul do Pará, Amapá e Tocantins, elevando os níveis de umidade do solo", completou.A estatal ressalta que, no Amazonas, o cultivo de arroz ocorre em áreas de várzea, condicionadas ao regime de cheia e vazante dos rios, assim como em áreas de terra firme, especialmente no Sul do Estado. "Houve registro de volumes elevados de chuva, alta umidade relativa do ar e temperaturas médias elevadas, condições que, de modo geral, favorecem o desenvolvimento vegetativo da cultura, sobretudo nas áreas inundáveis. Ainda assim, o calendário agrícola local costuma ser organizado a partir do cultivo da soja, influenciando o momento de implantação do arroz e das demais culturas na sucessão agrícola. Até o momento, não há registros significativos da cultura no período analisado", salientou, sem detalhar sobre as demais culturas.“Momento de incerteza”Em entrevistas anteriores à reportagem, o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, destacou que, nos últimos anos, o setor sofreu com a mudança climática. Seja pelo impacto direto das estiagens recordes de 2023 e 2024, seja pelos entraves proporcionados pelas cheias rigorosas de 2022 e 2025. Em nova entrevista à reportagem, o dirigente se mostra preocupado com outros fatores, com destaque para a escalada da guerra no Oriente Médio e seus impactos econômicos na precificação dos combustíveis e insumos do setor."Essa redução de projeções para a produção de grãos em nosso Estado pode decorrer de uma conjunção de fatores como alta taxa de juros, aumento de preços de insumos e custos de produção e dificuldades estruturais com licenciamento ambiental e regularização fundiária. O momento é de muita incerteza, diante do contexto geopolítico mundial. Principalmente com as guerras, que têm impacto em alta de combustíveis e fertilizantes. Mas, esperamos que, no decorrer do ano, a trajetória possa retomar o patamar de crescimento", finalizou.Milho registra forte retração e puxa cenário de incerteza para a produção estadual de cereais, leguminosas e oleaginosas