Veículo: Jornal Valor Econômico
Editoria: EMPRESAS
Tipo notícia: Reportagem
Página: B1
Data de publicacao: 14/10/2026
Origem da notícia: Iniciativa da mídia
Tipo de valoração: Espontânea
Categorias: Polo Industrial de Manaus

Setor de motos festeja recorde de olho nos chineses

Veículos Fabricantes pedem política de fortalecimento à indústria no momento de mercado aquecido


Carlos Prieto


De Sào Paulo


Após 14 anos, a produção de motocicletas no Brasil deve ultrapassar 2,1 milhões de unidades montadas no Polo Industrial de Manaus (PIM). O setor só superou essa marca em dois momentos na sua história:em 2008, com 2,141 milhões,e2011,com 2,131 milhões. Desta vez, os fabricantes avaliam que a volta ao patamar histórico ocorre em condições de mercado que permitem acreditar que ele se manterá pelos próximos anos. Tanto em 2008 como em 2011, a produção caiu em seguida. O maior temor, no entanto, é que o setor de motos enfrente o mesmo cenário das montadoras de automóveis: a concorrência do importado chinês.


“Nosso principal desafio para manter o atual patamar de produção é regulatório”, disse Marcos Bento, presidente da Abraci-do, associação que reúne onze fabricantes instalados em Manaus e responsáveis por cerca de 97% do mercado, após coletiva na terça-feira (13), quando apresentou as novas perspectivas para o ano. Para a produção, a estimativa de crescimento passou de 4,5% para 6%, enquanto para vendas foi de 4,6% para 6,9%.


A venda motos será recorde pelo segundo ano consecutivo, ficando em tomo de 2,35 milhões de motocicletas licenciadas. A diferença entre a produção registrada pela Abraciclo e o volume de licenciamentos é ocupada por fabricantes não associados à entidade e importações.


Bento afirma que a demanda é garantida e não vê, no cenário próximo, mudanças que possam reverter essa tendência de crescimento. A motocicleta, na sua avaliação, ocupa hoje um espaço diferente em relação a dez anos atrás, tanto como opção de transporte, de trabalho e de lazer.


“O cenário hoje ê bem diferente dos outros anos (2008 e 2011). Não tínhamos o delivery consolidado. Não tínhamos a diferença que existe hoje de preço entre carros e motos. Nosso produto está mais próximo da renda do brasileiro. Hoje, a motocicleta é a segunda opção de veículo para as famílias. E vemos o crescimento das vendas de alta cilindrada como opção de lazer”, afirmou.


Bento avalia que, mesmo com os juros e o endividamento das famílias em alta, o setor está mais maduro. Ele lembra que a crise de crédito vivida pelo país em 2016 foi um aprendizado. Hoje, tanto os fabricantes como o sistema bancário estão mais atentos à concessão de crédito para evitar a inadimplência. “E temos ainda o consórcio, que para nós representa cerca de 30% dos negócios e é uma alternativa aos momentos de juros altos”, completou.


O presidente da Abraciclo alerta que é preciso ter uma política de fortalecimento e proteção da indústria nacional para não enfrentar a mesma realidade vivida atualmente pelas montadoras de automóveis, principalmente no segmento de veículos elétricos. “Diria que pisamos para ficar no patamar [de produção] de 2,1 milhões”, afirma, para em seguida ponderar que é preciso olhar com atenção um setor que gera 22 mil empregos diretos em Manaus e faturou RS 28,3 bilhões entre janeiro e julho, alta de 11,4% na comparação com 2025. Esses números incluem os fabricantes de bicicletas.


As motos elétricas ainda não tiram o sono da indústria local. Segundo a Abraciclo, representam apenas 0,7% do mercado total. Mas essa pouca representati-vidade também já foi a realidade das montadoras de automóveis e, hoje, os eletrificados (híbridos e elétricos) representam cerca de 20% dos carros novos licenciados. E avançam com muita rapidez no mercado brasileiro.


As principais montadoras com produção no país detêm a tecnologia da motocicleta elétrica, mas continuam apostando no motor flex ou a gasolina. No acumulado de nove meses no ano até setembro, 62% dos modelos vendidos foram flex e 38% apenas a gasolina.


Como a produção acumula alta de 9,9% entre janeiro e outubro, o setor não deve ter dificuldades para atingir a estimativa de 6%, podendo até superar o atual recorde de 2008. Os modelos de baixa cilindrada, até 160 cc, representam 78,8% do mercado.


Entre os principais entraves para que a marca de 18 anos atrás seja superada estão os possíveis efeitos do El Nino na logística da região Norte, esperado com mais força para o fim de outubro. “Como todo efeito climático, é impossível saber sua intensidade”, adiantou Bento. Não há expectativa de linhas de produção paradas, mas é certo algum efeito sobre os custos da logística.


No mercado externo, o setor ainda busca seu melhor momento. A nova estimativa de expansão nas exportações é de 9%, contra 4,4% anterior, somando 47 mil unidades exportadas. O principal destino da moto brasileira é a Argentina, responsável por 40,6% das exportações, ou 14,5 mil unidades. Na sequência aparecem Estados Unidos (19,9% e 7,1 mil motocicletas embarcadas) e Colômbia (18,4% e 6,6 mil unidades exportadas).


2,1 mi é a estimativa de produção em 2026


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