IPCAacima do esperado em setembro pressiona estimativas. Recuo nos juros ocorre após primeiro turno das eleições
MAYRA CASTRO
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Pela quarta semana consecutiva, as projeções de inflação subiram, de acordo com o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central ontem. A estimativa para 2026 do índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, subiu de 5,01% na semana anterior para 5,22%. O mesmo boletim mostrou também que a Selic, a taxa básica de juros, voltou a cair, de 13,50% ao ano na divulgação anterior, para 13,25%. A taxa está atualmente em 13,75%. Já as expectativas para o câmbio para o fim do ano caíram de R$ 5,20 para R$5,15.
O relatório é o primeiro a ser divulgado após o primeiro turno das eleições de 2026, já que o publicado no dia 5 deste mês foi elaborado na sexta anterior ao pleito. O dólar caiu 4,12% na segunda-feira após o primeiro turno, maior queda diária desde 2018.
André Braz, economista do FGV Ibre, avalia que a revisão reflete principalmente a incorporação do IPCA de setembro, que veio acima do esperado, com alta de 0,82%. Ele explica que os preços da energia elétrica pressionaram o índice, com o fim do desconto temporário do bônus de Itai-pu, mas também houve pressão de alimentos, combustíveis e passagens aéreas.
—Quando a inflação de um mês surpreende para cima, a projeção do ano aumenta, mesmo que as estimativas dos meses seguintes permaneçam iguais. Por isso, a revisão não significa que os preços passarão a subir no ritmo de setembro. Parte da pressão da energia foi pontual, embora o retomo da alta dos alimentos mereça atenção. E a expectativa para 2027 permaneceu em 4,3%, o que sugere uma revisão mais concentrada no fechamento deste ano.
ALTA DE AUMENTOS
André Valério, economista do Inter, acrescenta que, além da inflação de setembro acima do esperado, há o fator de que estamos entrando em um período de sazonalidade de alta do IP-CA. Segundo ele, desde 2010, as medianas dos meses de outubro, novembro e dezembro são 0,50%, 0,51% e 0,62%, respectivamente, muito por causa dos alimentos, que devem se manter em alta até o fim do ano.
—Se assumirmos que a inflação irá convergir para essa mediana nas próximas três leituras, o IPCA fecharia 2026 com alta acumulada de 5,66% —projeta. —Nossa expectativa de momento é que o IPCA encerre 2026 por volta de 5,30%, refletindo essa aceleração da inflação de alimentos no curto prazo.
Valério diz que são justamente os resultados da disputa presidencial que explicam o arrefecimento das expectativas para os juros, a despeito da alta nas projeções de inflação:
— Com o desempenho de Flávio acima do projetado pelas pesquisas, a probabilidade da sua vitória aumentou. A expectativa de que um eventual governo Bolsonaro entregue uma política fiscal mais austera do que a do atual governo levou a uma reprecificação forte da curva de juros. Uma política fiscal mais restritiva seria mais uma pressão negativa de demanda e permitiría uma intensificação do ciclo de cortes da Selic pelo Copom.
A explicação para o recuo nas projeções do câmbio também tem relação com as eleições: a maior queda diária do dólar em mais de oito anos, que ocorreu logo após o primeiro turno, foi a reação do mercado à vantagem de Flávio sobre Lula.
O economista também lembra que a alta de setembro foi focada nos grupos de habitação, alimentação e bebidas e transportes, que são amplamente influenciados por fatores de oferta. Portanto, sem sinais claros de aceleração pela demanda, não havería urgência de uma resposta da política monetária, o que contribui para a queda nas projeções.
Já as previsões para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano permaneceram em 1,85%, no mesmo nível da semana passada.