Entidade prevê 2,1 milhões de motocicletas fabricadas no PIM em 2026, alta de 6% sobre o ano anterior
MARCO DASSORI
@marco.dassori @jcommercio
Diante da renovação de recordes de produção e vendas ao longo do ano, a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares) voltou a aumentar suas apostas no PIM para 2026. Em coletiva de imprensa, realizada nesta terça (13), a entidade revisou a projeção de crescimento, de 4,5% para 6%. A expectativa agora é que o Polo Industrial de Manaus feche o ano com 2.100.000 unidades fabricadas, e não mais as 2.070.000 anteriormente calculadas. As expectativas subiram também para as vendas domésticas (+6,9% e 2.350.000) e as exportações (+11,3% e 48.000) -em seu segundo ano de recuperação.
O reforço nas perspectivas de crescimento do subsetor reflete a escalada de produção de motocicletas nos meses anteriores. De janeiro a setembro, o Polo Industrial de Manaus já acumula alta de 9,9%, com 1.645.034 unidades fabricadas, no melhor resultado para o período desde 2008. Setembro (186.758), por sua vez, teve acréscimo de 10,4% sobre o mesmo período de 2025 (169.206). Foi a melhor performance para setembro desde 2011. Ficou 8,5% atrás apenas do recorde anual de agosto (204.085), marcando o segundo melhor placar do ano. Os emplacamentos domésticos do levantamento parcial de 2026 registraram a maior pontuação da série histórica da Abraciclo.
O presidente da Abraciclo, Marcos Bento, garante que o mercado continua em alta, graças aos atributos das motocicletas, como opção de mobilidade urbana de menor custo, e de crescente uso profissional nos serviços de deli-very de todo o Brasil. "A demanda é consistente em todos os Estados do país. Isso faz com que a gente tenha lançamentos de novos modelos, oferecendo ao consumidor produtos cada vez mais modernos, versáteis e tecnológicos. O destaque vem principalmente do segmento de alta cilindrada", enfatizou. "Isso demonstra que o mercado está com crescimento equilibrado, com o consumidor mudando de faixa", emendou.
O dirigente abriu a coletiva reforçando outros números positivos do polo de duas rodas de Manaus -o maior fora da Ásia -, com impactos em todo o país. Citou principalmente a contribuição em termos de mão de obra, mencionando dados da Suframa. O segmento gerou 1.000 novas vagas nos oito meses iniciais do ano e totalizou um estoque de 21.900 empregos. O faturamento acumulado do subsetor no ano cresceu 11,4% no aglutinado de janeiro e julho, somando R$ 28,3 bilhões. O segmento conta com capacidade instalada de 2,2 milhões de motocicletas por ano e gera 154 mil postos de trabalho em todo o país, além de 7.800 pontos de venda e 1.500 empresas de componentes, no território nacional.
Emplacamentos e exportações
Os emplacamentos renovaram recorde no acumulado. De janeiro a setembro, foram licenciadas 1.783.972 motocicletas, o que indica expansão de 10,5% sobre o mesmo acumulado do exercício anterior (1.614.191). O volume comercializado no varejo interno em setembro (205.120), entretanto, desacelerou. Foi 0,1% inferior ao de agosto (205.272) - o pico de 2026 -e 0,4% mais baixo do que o patamar de 12 meses atrás (205.900). Em contrapartida, com 21 dias úteis, a média diária de vendas foi de 9.768 unidades, um indicador melhor do que o do mês anterior (8.662) e de um ano antes (9.360).
O Sudeste concentrou 32,6% (580.700) das vendas dos nove primeiros meses de 2026, e continua atrás do Nordeste (33,2% e 592.500). Na sequência estão o Sul (13% e 233.100), o Norte (12% e 214.000) e o Centro-Oeste (9,2% e 163.700). Em torno de 62% (1.019.300) das motocicletas 'made in ZFM' são modelos bicombustível (etanol/gasolina), enquanto 38% (625.800) são movidas exclusivamente a gasolina. De acordo com o presidente da Abraciclo, o segmento de elétricas responde por menos de 0,7% da produção.
Motos de baixa cilindrada (até 160) representaram 78,8% (1.295.500) da oferta do PIM no acumulado. Os modelos de 161 a 449 cilindradas responderam por 18,4% (303.000), enquanto os veículos acima de 450 cilindradas contribuíram com 2,8% do total (46.500) -além de alcançarem a maior alta do ano (+19,5%), embora todas tenham crescido. Em termos de categorias, a Street respondeu por 51,2% (842.200), seguida pela Trail (20% e 328.600) e pela Motoneta (13% e 214.200).
As exportações oscilaram, embora se mantenham acima do patamar do ano passado. Em setembro, foram exportadas 4.826 unidades, o que corresponde a uma retração de 8,2% na comparação com o mesmo mês de 2025 (5.258) e alta de 12,5% em relação a agosto (4.290). No acumulado do ano, os negócios com o mercado externo registraram incremento de 23,7%, somando 36.489 embarques par ao estrangeiro. Em 2026, os principais mercados foram Argentina (14.500 ou 40,6% do total), EUA (7.100 ou 19,9%), Colômbia (6.500 ou 18,4%), com altas de 9,6% e 54,3% e 1,5%, respectivamente. O 'top five' se completa com Austrália (2.500) e Canadá (1.500), que expandiram 4,2% e 36,4%, na ordem.
Estiagem e eleições
Apesar do prognóstico positivo do mercado, Marcos Bento salientou que a indústria de motocicletas ainda tem desafios significativos no horizonte, para continuar crescendo. Um deles vem do dos efeitos da mudança climática na hidrologia e logística do Amazonas, em tempos de seca alimentada pelo 'Super El Nino'. "Temos uma estiagem que deve estar em seu pico no final de outubro, podendo causar impactos na nossa cadeira produtiva", frisou.
Questionado pela reportagem sobre o tema da vazante, na fase de perguntas dos jornalistas, o executivo disse que a Abraciclo tem monitorado a situação dos rios. "O aprendizado com as secas de 2023 e 2024 fez com que as indústrias se preparassem com antecedência [de estoques]. As autoridades também puderam trabalhar em conjunto, para melhorar as questões burocráticas. E temos os portos avançados [em Itacoatiara], por iniciativa privada.
Então, acreditamos que vamos conseguir atingir o volume de produção projetado", reforçou.
Outro entrave citado vem do calendário de macroeventos para 2026. "Temos eleições majoritárias no Brasil e nos EUA. Ambas podem influenciar na definição de políticas fiscais, controle de gastos, taxas de juros e possíveis flutuações cambiais", detalhou. Há ainda um esfriamento nas expectativas para o cenário macroeconômico nacional do segundo semestre. "Devemos seguir com o ciclo de desaceleração econômica, inflação persistente e um ambiente de política monetária restritiva", adiantou.
O presidente da Abraciclo foi indagado se, diante desse cenário, os fabricantes tem planos concretos de ampliar capacidade produtiva, investimentos e contratações para 2027, ou se o crescimento se dará somente por ganhos de produtividade. "Cada fabricante faz as suas projeções. A gente espera que o PIM consiga acompanhar o ritmo do mercado", afiançou.
O dirigente disse que o segmento se prepara para os próximos 50 anos. "Esperamos que a gente possa ter um PIM cada vez mais tecnológico. Precisamos de políticas regulatórias equilibradas que garantam a competição igual para todos, de valorização da indústria nacional e de um ambiente de regulamentação tributária e de segurança no trânsito mais favoráveis, para que a motocicleta continue crescendo e impulsionando, não apenas a economia do Amazonas, mas também a nacional", finalizou.