Márcio Salmi
Diretor comercial da Norcoast
Em 8 de setembro, o Rio Negro atingiu 22,95 metros em Manaus, após recuar 94 centímetros em apenas uma semana. Apesarde o nível ainda permanecer dentro da faixa de normalidade para o período, a vazante segue em ritmo acelerado, enquanto o setor se prepara para possíveis restrições à navegação a partir da segunda quinzena de setembro. O cenário deixou de serapenas uma preocupação futura.
Avazante faz parte do ciclo natural dos rios amazônicos, mas sua recorrência não reduz a gravidade dos períodos mais críticos. As projeções mais recentes do Serviço Geológico do Brasil mostram que, dependendo do ritmo de descida das águas, o Rio Negro pode chegarao fim de outubro em patamares considerados baixos para Manaus.
Incluir a seca no planejamento não significa naturalizá-la, e sim criar condições para respondercom menos improviso. Essa preparação ultrapassa a Região Norte: no primeiro semestre de 2026, o Polo Industrial de Manaus faturou R$ 121,76 bilhões e manteve mais de 130 mil empregos. Restrições na região podem atingir cadeias produtivas de todo o país. As secas de 2023 e 2024 mostraram a dimensão desse desafio. Em 2024, o Rio Negro chegou à cota mínima histórica de 12,11 metros em Manaus. Em situações severas, a redução da profundidade dos canais de acesso exige a diminuição do calado dos navios, ou seja, do quanto a embarcação pode ficar submersa. Na prática, quanto mais baixo está o rio, menos carregado o navio precisa estar para navegarcom segurança e menoré a quantidade de carga transportada por viagem.
Quando a redução da carga já não é suficiente para garantir a navegação, a operação precisa recorrera outras soluções, como estruturas flutuantes instaladas antes dos trechos mais rasos, onde a carga é transferida para balsas e embarcações menores.
Adragagem, procedimento que retira sedimentos do fundo dos rios para manter a profundidade dos canais, também integra as medidas previstas para a estiagem. No fim de agosto, o DNIT informou que já havia emitido as ordens de serviço e iniciado a mobilização de equipes e equipamentos para intervenções em quatro trechos hidroviários do Amazonas, entre eles Manaus-Itacoatiara, com início previsto para a primeira quinzena de setembro.
As decisões mais relevantes, por isso, não terminam quando o risco começa a se concretizar. Empresas com fluxos regulares para a região precisam identificar quais cargas podem ser antecipadas, quais produtos exigem estoques de segurança e quais entregas demandam uma programação diferenciada. O objetivo não é simplesmente aumentar estoques, mas priorizar os pontos em que uma eventual ruptura teria maior impacto sobre a produção, as vendas ou o atendimento ao cliente.
Para que esse planejamento seja efetivo, o monitoramento hidrológico precisa estar ligado a critérios de ação. Acompanhar diariamente o nível dos rios só faz diferença quando a informação orienta decisões como anteciparvolumes, revisar estoques, ajustar embarques, reduzira carga porviagem ou acionar alternativas logísticas. Mesmo com menos tempo de resposta, ainda é possível evitar improvisos quando essas medidas já foram consideradas.
Essa capacidade de adaptação também muda a forma de olharpara os custos. Durante uma estiagem mais severa, podem surgirdespesas adicionais com transbordo, balsas, armazenagem, redução de carga, tempo de trânsito e sobretaxas. Isoladamente, essas medidas representam custos relevantes. Mas a análise precisa considerar também o impacto de uma linha de produção parada, de um compromisso comercial não atendido ou da indisponibilidade de um produto no mercado.
É porisso que a seca não deve ser tratada apenas como um problema da área de logística. Aprodução precisa identiflcaros insumos mais críticos; o comercial, os compromissos de entrega mais sensíveis; compras, os prazos de reposição; e finanças, o efeito de eventuais antecipações sobre o capital de giro. Aresiliência da operação depende da capacidade de essas decisões acontecerem de forma coordenada.
Acabotagem continua tendo papel estrutural nessa conexão. Segundo a Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem, as empresas associadas movimentaram 462.713TEUs no segundo trimestre de 2026, crescimento de 5,6% em relação ao mesmo período de 202 5.
Na Amazônia, o desafio não é substituir o transporte aquaviário, mas adaptar sua operação às condições dos rios.
Nenhum planejamento é capaz de controlar o nível das águas. Existe, porém, uma diferença grande entre enfrentar uma restrição com alternativas definidas e começar a decidir quando cada limitação já está instalada. Previsibilidade, nesse contexto, significa acompanhar a velocidade da mudança e agirenquanto ainda existem escolhas possíveis.