Veículo: Jornal do Commercio
Editoria: Economia
Tipo notícia: Reportagem
Página: 1 - A5
Data de publicacao: 21/05/2026
Origem da notícia: Iniciativa da mídia
Tipo de valoração: Espontânea
Categorias: Fecomércio

AM tem oportunidade global para crescer

O crescimento das tensões da geopolítica global trazem oportunidades para o Brasil e Amazonas. Isso porque o novo cenário mundial de acirramento de choques comerciais entre EUA e China, e de “guerras por procuração” está trazendo mais capital e volume de negócios para países emergentes. A dúvida é como se comportarão os governos locais para capitalizar o momento. A conclusão vem do cientista político, professor, escritor, palestrante e político, Heni Ozi Cuckier, e foi apresentada em palestra apresenta para líderes, economistas e empresários, na noite desta sexta (15). O evento marcou a primeira edição regional do Global Voices, no encerramento da “Semana S”, evento promovido pela Fecomércio-AM. Página A5

Geopolítica abre oportunidades

O crescimento das tensões da geopolítica global trazem oportunidades para o Brasil e Amazonas. Isso porque o novo cenário mundial de acirramento de choques comerciais entre EUA e China, e de “guerras por procuração” está trazendo mais capital e volume de negócios para países emergentes. A dúvida é como se comportarão os governos locais para capitalizar o momento. A conclusão vem do cientista político, professor, escritor, palestrante e político, Heni Ozi Cuckier, e foi apresentada em palestra apresentada para líderes, economistas e empresários, na noite desta sexta (15). O evento marcou a primeira edição regional do Global Voices, no encerramento da “Semana GS”, evento promovido pela Fecomércio-AM, e acompanhado pela reportagem.


Conhecido como ‘professor HOC’ o palestrante, que também teve um mandato como deputado estadual por São Paulo (pelo Podemos, entre 2019 e 2022) em seu currículo observa que a geopolítica impacta em todas as dimensões econômicas do mundo moderno, como câmbio, inflação, etc. Frisou, contudo, que a variável econômica não é o motor das decisões no âmbito geopolítico. “Uma decisão econômica compara custos e benefícios. Mas, as definições geopolíticas estão associadas à nossa posição política e cultura. E as relações comerciais não são puramente de ganha-ganha, mas de poder”, sintetizou.


Ele questionou o senso comum de que certos países são “interdependentes”. Deu como exemplo as vendas de minério de ferro do Brasil para a China. “O país asiático não precisa comprar tanto volume de nós, pois pode adquirir do Canadá ou da Austrália. Mas, o Brasil não tem outro país para quem vender tanto minério de ferro. Ou seja, não existe interdependência. Todas as relações entre países são de dependência para um lado ou outro. E não é como na esfera doméstica, onde há estado de direito, porque não tem Constituição do Mundo. A regra que é o vale tudo e a lei do mais forte”, frisou.


Segundo o professor HOC, os governos mundiais já perceberam a real dimensão dessa relação, principalmente a partir da pandemia da Covid-19. “Estava todo mundo precisando de equipamentos e insumos de saúde, mas perceberam que tudo era produzido na China. Logo depois, a Rússia invade a Ucrânia. A partir daí, tivemos mudança de paradigma e se começou a falar de estratégias para mitigar as dependências na cadeia de valor”, relatou.


Para não depender mais tanto da China, prosseguiu o especialista, os países passaram a produzir em ‘países amigos’ ou em nações geograficamente próximas. “São exemplos de que a lógica econômica foi substituída por outra. Até então, você procurava no mercado quem pode vender o produto da qualidade X para me entregar no prazo e no menor preço. Agora, os governos estão dispostos a pagar mais, desde que não estejam expostos ao risco político, econômico e geopolítico”, comparou, acrescentando que a dependência brasileira em relação ao China, deixa o Brasil vulnerável “ao risco geopolítico daquele país”.


EUA x China


O professor HOC lembrou que o fronte externo de 2026 já começou volátil com a captura do ex-presidente/ditador da Venezuela, Nicolas Maduro, pelo governo norte-americano, seguida pela guerra no Irã. “Desde o ano passado, por outro lado, temos o ‘tarifaço’, que ainda não morreu. O presidente norte-americano concluiu que o modelo econômico chinês manipula o câmbio para privilegiar sua indústria exportadora, gerando grande desequilíbrio nas balanças comerciais, indústrias e empregos de muitos países, principalmente dos EUA. E, sem indústria, não é possível produzir armas. Por isso, o problema comercial com a China é encarado como um problema de segurança nacional”, salientou.


O cientista social chama a atenção também para o fato de que, em paralelo, a procura pelos títulos da dívida dos EUA começou a declinar, ameaçando a supremacia da moeda norte-americana e sua capacidade de financiar o próprio endividamento. Sob orientação do secretário do Tesouro Americano, e pressão do presidente JP Morgan, Trump congelou o ‘tarifaço’. “Mas, o estrago na credibilidade do dólar já tinha sido feito. A China dobrou a aposta e diz que quer comercializar agora em sua moeda, o yuan. Estamos no auge de uma guerra comercial e os próximos passos podem ser guerra financeira e guerra física”, alertou.


Outro elemento destacado nesse tabuleiro é o papel estratégico do controle de determinadas ilhas no mundo, a exemplo de Cuba e Taiwan, e também das ilhas iranianas no estreito de Ormuz. Isso porque tal controle facilita o bloqueio de rotas navais. A Groelândia também entra na lista, em função do derretimento das calotas polares. “A China pode estar se preparando para perder muito dinheiro, porém destronando o dólar. Trump errou no remédio (os ‘tarifaços’) e em aplicá-lo para amigos e inimigos. E, na hora em que ameaçou invadir a Groelândia, os fundos europeus sinalizaram parar de financiar a dívida americana e falar em guerra financeira”, contextualizou.


Conhecimento e infraestrutura


O resultado desses movimentos, conforme o palestrante, foi a migração de parte do capital que financiava a dívida americana para países emergentes e geograficamente distantes dos conflitos mundiais. “A bolsa brasileira está batendo recordes. E há poucos países no mundo com proporções continentais, grande população e energia renovável, que é fundamental na era da inteligência artificial. Temos também recursos ambientais e a segunda maior reserva de terras raras, logo depois da China”, listou.


O estudioso observa que, durante anos, a China aumentou seu volume de negócios na América Latina, diante da indiferença dos capitais norte-americanos e europeus. “Isso mudou. A América do Sul é agora o lugar mais importante para a segurança nacional norte-americana. E a Europa está apostando na parceria com o Mercosul. Estamos longe do problema e no centro das atenções, em um cenário de oportunidades que surge a cada 50 ou até 100 anos. Precisamos ter um plano para caminhar”, recomendou.


Cuckier frisa que o Brasil precisa permanecer neutro nesse cenário, entre outras providências. “Não dá para esperar cinco anos para regulamentar a exploração das terras raras e ver o trem passar. E também não pode abrir a exploração para a China, que já é a maior produtora. Mas, o Brasil está em um lugar muito favorável e, mesmo que faça tudo errado, vamos ficar bem. Se fizermos tudo certo, o país sobe como foguete”, afiançou.


Questionado pela reportagem sobre como fica o Amazonas nesse cenário, o ‘professor HOC’ assinalou que há riscos à soberania brasileira e à sua possibilidade de gerenciar seu estoque ambiental “de forma que produza crescimento”. Mas, reforça que o Estado também tem oportunidades, embora elas dependam de decisões governamentais.


“O melhor desenvolvimento econômico vem do conhecimento, coisa que o Brasil não tem. Temos de convidar o mundo inteiro para criar centros de pesquisas avançados aqui. Por que não ter um MIT no meio da floresta amazônica? Poderíamos descobrir a cura de todas as doenças. O Brasil tem de convidar as mentes brilhantes do mundo para virem para cá extrair esse ativo ambiental. São produtos que geram muito dinheiro que não estão no extrativismo puro. Temos de ter uma visão mais holística. E, precisamos também de infraestrutura”, encerrou.

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