Veículo: Jornal do Commercio
Editoria: Opnião
Tipo notícia: Editorial
Página: A3
Data de publicacao: 21/05/2026
Origem da notícia: Iniciativa da mídia
Tipo de valoração: Espontânea
Categorias: Fecomércio

Amazonas precisa de um ambiente economicamente atrativo

A nova desordem mundial abriu uma janela rara para o Brasil. E o Amazonas precisa entender isso com urgência. Em um cenário de guerras comerciais, disputa tecnológica e tensão militar crescente, o país deixou de ser apenas um espectador periférico para ocupar posição estratégica no tabuleiro global. A questão agora é saber se haverá capacidade política e institucional para transformar oportunidade em desenvolvimento.


A análise do cientista político Heni Ozi Cuckier, apresentada durante a Semana “S” da Fecomércio-AM, ajuda a compreender a mudança de paradigma em curso. A lógica econômica clássica perde espaço para a lógica geopolítica. O menor preço já não basta. Segurança, estabilidade política, acesso a recursos naturais e proximidade diplomática passaram a pesar mais nas decisões de investimento e comércio internacional.


A pandemia expôs a dependência mundial da China. A guerra entre Rússia e Ucrânia aprofundou a percepção de vulnerabilidade nas cadeias globais. Os Estados Unidos reagiram com tarifas, restrições tecnológicas e uma política comercial agressiva. A China respondeu acelerando sua ofensiva financeira e diplomática. O mundo entrou em uma disputa aberta por influência, mercados, minerais estratégicos e rotas comerciais.


Nesse ambiente, países emergentes passaram a atrair capital. O Brasil aparece como um território relativamente estável, distante dos conflitos armados, rico em energia renovável, biodiversidade e minerais críticos. A valorização da bolsa brasileira e o interesse renovado de potências econômicas pela América do Sul não são coincidência. São sintomas de uma reorganização global.
O Amazonas está no centro desse debate. A floresta deixou de ser vista apenas como patrimônio ambiental. Tornou-se ativo geopolítico. E isso exige maturidade. O Estado possui biodiversidade, água, posição estratégica e potencial científico ainda subexplorado. Mas continua limitado por gargalos históricos de infraestrutura, logística precária e baixa capacidade de transformar conhecimento em riqueza.


O ponto mais relevante da reflexão de Cuckier talvez esteja justamente aí: o desenvolvimento do século 21 será definido menos pela extração bruta de recursos e mais pela capacidade de produzir conhecimento. A ideia de atrair centros internacionais de pesquisa para a Amazônia parece ousada, mas faz sentido. O mundo disputa inteligência artificial, biotecnologia e inovação verde. A floresta amazônica pode ser laboratório científico global ou apenas fornecedora de matéria-prima barata. A diferença está na visão estratégica.


O Amazonas não pode assistir passivamente ao rearranjo econômico internacional. Precisa construir um ambiente favorável para ciência, inovação e infraestrutura. Precisa discutir conectividade, segurança jurídica, formação técnica e integração logística. Sem isso, continuará rico em potencial e pobre em competitividade.


A geopolítica abriu uma oportunidade que talvez apareça uma vez por geração. O risco é repetir um velho hábito brasileiro: perceber tarde demais que o futuro passou diante dos olhos.


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