Brent foi abaixo de US$ 95 nas primeiras negociações de hoje no mercado internacional, com a possível retomada da oferta do Oriente Médio. Produção de março nos países da Opep teve a maior queda desde 1989
Da Bloomberg News
O preço do petróleo despencou ontem, depois do fechamento dos pregões regulares, logo após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar um cessar-fogo de duas semanas na guerra contra o Irã. O barril do óleo tipo Brent (padrão global), que fechou a US$ 109,27 na tarde de terça-feira, em Londres, já era negociado entre US$ 90 e US$ 95 nos primeiros negócios de hoje no mercado internacional, uma baixa em tomo de 15%. Se mantida, a queda da cotação do petróleo para níveis abaixo de US$ 100 traz alívio à economia global diante do fortíssimo impacto negativo que a disparada das cotações provocou na maioria dos países, incluindo o Brasil, com alta nos preços dos combustíveis e das projeções de inflação e juros, além de crescimento menor.
Trump condiciou o cessar-fogo à reabertura do Estreito de Ormuz (leia na página 16), o que poderia permitir o tráfego de navios com a produção dos países do Golfo Pérsico. Desde os primeiros bombardeios de EUA e Israel a Teerã, em 28 de fevereiro, o Irã fechou a passagem marítima por onde passam 20% do petróleo consumido mundialmente, forçando Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque a reduzirem drasticamente a produção. Pesquisa da Bloomberg divulgada ontem revelou que a produção de óleo bruto da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) despencou em março no ritmo mais acentuado em pelo menos quatro décadas, na medida em que o conflito no Oriente Médio restringiu as exportações de seus membros mais importantes. A redução foi de 7,56 milhões de barris por dia —ou cerca de 25%.
CRISE DE 1973
A queda da produção da Opep foi a maior para um único mês desde 1989, com a ressalva da redução da oferta pela queda da demanda global por combustíveis no início da pande-mia de Covid. Em termos numéricos, a redução de 7,56 milhões de barris por dia no mês passado também supera a da histórica crise do petróleo árabe de 1973, quando os mercados sofreram uma perda bruta de 5 milhões de barris por dia entre outubro e dezembro daquele ano, mas o choque daquela época ocorreu em um mercado global muito menor.
O Iraque — o membro da Opep mais dependente do Estreito de Ormuz —sofreu a maior queda, com a produção diminuindo em 2,76 milhões de barris por dia, para 1,63 milhão de barris por dia.
O exército iraniano afirmou no fim de semana que “o Iraque irmão está isento de quaisquer restrições” ao trânsito pelo vital corredor marítimo. Contudo, o rastre-amento de navios-tanque mostra que ainda não há indícios de uma corrida para testar essa isenção. O tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz permanece 96% abaixo dos níveis pré-guerra.
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos tiveram suas perdas atenuadas pela sua capacidade de desviar parcialmente as exportações para oleodutos alternativos que contornam o estreito. A produção saudita caiu 2,07 milhões de barris por dia, para 8,36 milhões, e mesmo com a capacidade do reino de exportar pelo Mar Vermelho, o ras-treamento de navios-tanque mostra que as exportações do país despencaram cerca de 50% em março. Nos Emirados Árabes Unidos, a produção recuou 1,44 milhão de barris por dia, para 2,16 milhões, segundo a pesquisa.
AOpepfoi fundada em 1960 por Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela. Ao longo dos anos foram incorporados outros países, como Líbia, Argélia e Nigéria, e a organização tem hoje 12 membros. Em 2016 surgiu a Opep+, que incluiu Rússia, México, Omã, Azerbaijão, Cazaquistão e Malásia, entre outros.
Antes da guerra, os países-chave da Opep+ estavam mantendo a produção de petróleo em níveis elevados, o que fez o preço do barril do Brent (referência global) ser negociado abaixo de US$ 60 no fim do ano passado.
PLANALTO PUBLICA MP
Em Brasília, o governo federal publicou ontem uma medida provisória e decretos com validade imediata prevendo os novos subsídios e a desoneração de impostos sobre combustíveis, além de linhas de crédito mais baratas para as empresas aéreas.
As medidas atingem o diesel, o biodiesel, o Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) e o combustível de aviação (QAV). O governo também quer aumentar a punição de comerciantes em casos de abusos de preços e enviou ao Congresso um projeto de lei prevendo penas de até cinco anos de prisão.