Veículo: Brasil Amazônia Agora
Editoria: Notícias
Tipo notícia: Artigo
Data de publicacao: 08/04/2026
Origem da notícia: Iniciativa da mídia
Tipo de valoração: Espontânea
Categorias: Assunto de interesse | Suframa

O novo papel da Amazônia produtiva no Brasil que se reconfigura – Entrevista com Leopoldo Montenegro

Em entrevista exclusiva ao Brasil Amazônia Agora, o novo superintendente da SUFRAMA, Leopoldo Montenegro, projeta uma Zona Franca mais tecnológica, integrada à bioeconomia e posicionada como ativo estratégico na transição global

Assumir a Superintendência da Zona Franca de Manaus neste momento é mais do que uma mudança de gestão. É ocupar um ponto sensível da reorganização econômica do país.

O novo superintendente chega com uma leitura clara do contexto: o Brasil vive uma transição de modelo, e a Amazônia deixa de ser periferia para ocupar o centro da agenda estratégica.

A aposta é direta. Uma economia mais limpa, mais tecnológica e com maior capacidade de agregar valor a partir dos ativos naturais da região.

Coluna Follow-Up

BAA – O que representa assumir a Suframa neste momento específico do Brasil e da Amazônia Ocidental?

Leopoldo Montenegro – Vivemos um cenário de transição importante na economia brasileira, e a Amazônia se encontra no centro do debate sobre o novo modelo de desenvolvimento sustentável do país. Portanto, acredito que podemos ser protagonistas do processo de passagem para uma economia mais limpa, mais agregadora de valor, mais tecnológica e mais intensiva no uso responsável dos nossos bioativos regionais.

BAA – Qual leitura o senhor faz do papel atual da Zona Franca de Manaus no contexto nacional?

Leopoldo Montenegro – Vejo a Zona Franca com um papel estratégico, sobretudo em um momento em que há um esforço do Governo brasileiro no sentido de retomar a importância da participação da indústria de transformação na economia do país. Esse esforço se materializa na formulação de uma nova política industrial – a Nova Indústria Brasil – cujas premissas baseadas em descarbonização, na bioeconomia e no avanço tecnológico são altamente aderentes à produção do Polo Industrial de Manaus.

BAA – Quais são as três primeiras medidas ou frentes de atuação que o senhor pretende implementar? Há alguma agenda emergencial que exige resposta rápida da Suframa?

Leopoldo Montenegro – Neste primeiro momento, elegi como prioridades o avanço no processo de modernização da Suframa, principalmente a partir da construção dos novos sistemas informatizados para agilizar e melhorar a qualidade dos serviços prestados aos nossos usuários; a atração de novos investimentos, para que possamos diversificar a produção e aumentar a mão de obra ocupada e; principalmente, estruturar o processo de operacionalização das novas regras advindas da regulamentação da reforma tributária.

BAA – A ZFM segue sendo alvo de críticas recorrentes. Onde o senhor acredita que está o maior problema: comunicação, modelo ou execução? Como pretende fortalecer a narrativa e a legitimidade do modelo?

Leopoldo Montenegro – As principais críticas à Zona Franca de Manaus recaem sobre o custo fiscal do modelo e sobre sermos, supostamente, um enclave econômico, isolados do restante do país, o que, do ponto de vista prático, não faz sentido. Somos os principais geradores de arrecadação federal na Região, de emprego qualificado e de renda, além de contribuímos para a conservação da cobertura florestal nativa do Amazonas, além de estarmos bastante integrados a outras cadeias produtivas do restante do país.

Nesse sentido, acredito que precisamos estabelecer uma nova abordagem de comunicação que esclareça o papel estratégico da Zona Franca para a Amazônia e para o Brasil.

BAA – Como integrar a bioeconomia ao modelo industrial sem fragilizar a competitividade do Polo Industrial de Manaus?

Leopoldo Montenegro – A integração da bioeconomia à indústria do PIM fortalece nosso modelo e a economia do Estado como um todo, e o reflexo desse processo é justamente a interiorização do desenvolvimento. Para que isso aconteça, o Amazonas precisa superar desafios históricos, como garantir regularização fundiária; oferecer assistência técnica ao produtor que o habilite a alcançar escala, tratamento, armazenamento e escoamento da produção e; acima de tudo, agregar valor, e temos visto que o alcance da maior parte desse propósito é possível a partir da aplicação da inovação, da pesquisa e da tecnologia.

BAA – Como o senhor avalia o uso dos recursos de P&D (Lei de Informática, PPBio etc.)? Existe espaço para uma política mais agressiva de inovação na Amazônia?

Leopoldo Montenegro – Considero a política de investimentos em PD&I derivada da Lei de Informática da Zona Franca de Manaus como uma poderosa ferramenta de transformação econômica ao dispor da nossa região, na medida em que possibilita o surgimento de novos produtos e novos negócios inovadores na Amazônia.

Estimamos que, em 2025, o montante desses investimentos tenha alcançado R$ 1,6 bilhão e esses recursos vêm, gradativamente, se desconcentrando em direção aos estados da Amazônia Ocidental e do Amapá, graças ao esforço da Suframa em levar informação a essas localidades sobre as possibilidades de aportes em projetos de diversas vertentes, através das Jornadas de Integração e Interiorização do Desenvolvimento. 

BAA – Logística continua sendo um dos principais entraves. Há alguma estratégia concreta em construção? Como a Suframa pode influenciar decisões estruturais que estão fora da sua governança direta?

Leopoldo Montenegro – A insuficiência logística, exposta severamente pelas secas de 2023 e 2024, reforça a urgência das pautas defendidas pela Suframa: BR-319 pavimentada, hidrovias operacionais e modais integrados. A competitividade do modelo ZFM depende da superação do isolamento geográfico.

Por isso, trabalhamos em estreita colaboração com o Governo Federal, via MDIC, para viabilizar soluções estruturantes. O Plano Nacional de Logística, no âmbito do Ministério dos Transportes, e o Projeto Rotas de Integração Sul-Americana, do Ministério do Planejamento, são avanços promissores que visam transformar a realidade do abastecimento e escoamento de mercadorias na região.

BAA – A agenda ESG virou linguagem obrigatória. Como traduzir isso em vantagem competitiva real para a ZFM?

Leopoldo Montenegro – A agenda ESG se traduz em vantagem real para o investidor e para a Zona Franca, de maneira geral. Hoje, importa para o consumidor saber se aquela mercadoria ajudou a preservar a Amazônia ou se promoveu o desenvolvimento social de quem vive aqui. Foi por essa razão que lançamos, em 2025, a iniciativa ZFM+ESG, visando incentivar a adoção de práticas ambientais, sociais e de governança corporativa pelas empresas em nossa área de atuação.

Desde então, temos dezenas de empresas que se voluntariaram a participar e que estão implementando ações nas três dimensões do ESG. Na prática, isso vira vantagem quando uma empresa do Polo consegue acessar crédito mais barato por ser sustentável, ou quando ela reduz desperdícios adotando economia circular. Além disso, o ESG é a nossa melhor defesa institucional.

Fica muito difícil questionar os incentivos da ZFM quando a gente prova, com dados, o efeito positivo do PIM na conservação da cobertura florestal nativa do Amazonas.

BAA – Como será o diálogo com entidades como CIEAM, FIEAM e empresas do Polo? Pretende implementar algum modelo de governança mais colaborativo?

Leopoldo Montenegro – Nosso diálogo com empresas e entidades de classe já é, e continuará a ser, o mais franco, aberto e colaborativo possível. Foi por meio dessa aproximação com o setor produtivo que conseguimos entender de perto os entraves e as potencialidades de cada um dos segmentos do Polo Industrial de Manaus e, munidos dessas informações, conseguimos avançar em muitos temas internos da Suframa, ou junto a outros órgãos da Administração Federal e do Congresso Nacional, quando estavam fora de nossa área de atuação.

BAA – Investidores ainda enxergam instabilidade no modelo? O que pode ser feito para aumentar previsibilidade e atratividade?

Leopoldo Montenegro – Muito pelo contrário. Não receio afirmar que a Zona Franca de Manaus nunca esteve amparada por tanta segurança jurídica como depois da Reforma Tributária, que vai marcar uma nova trajetória do nosso modelo daqui por diante. As diretrizes que foram estabelecidas na Constituição Federal e as regras instituídas nas leis que regulamentaram os benefícios tributários relativos à Zona Franca e às Áreas de Livre Comércio mantiveram nossa competitividade e nos tornaram mais atrativos em um ambiente em que haverá pouquíssimas exceções ao regime regular.

E isso já está se materializando desde agora, pois temos observado o aumento do interesse de investidores nacionais e estrangeiros pelo Polo Industrial de Manaus, inclusive pela elevação na apresentação de projetos de ampliação e de implantação de novos empreendimentos.

BAA – Onde o senhor imagina a Suframa e a Zona Franca daqui a 10 anos?

Leopoldo Montenegro – Vejo uma Suframa mais ágil, digital e conectada, levando o desenvolvimento de maneira cada vez mais intensa para os outros estados da nossa área de atuação, e uma Zona Franca de Manaus como o principal exemplo mundial de que é possível ter uma indústria pujante, de alta tecnologia, operando em total harmonia com a floresta. Imagino um Polo Industrial que desenvolve tecnologia própria aqui dentro, aproveitando a nossa biodiversidade de forma inteligente e sustentável.

Se conseguirmos deixar um ecossistema onde o jovem amazonense tenha oportunidade de trabalhar com tecnologia de ponta sem precisar sair da sua terra, sabendo que ele faz parte da solução para a mudança econômica e social da região, então meu trabalho terá valido a pena.

Quem é o novo superintendente da Suframa

Leopoldo Augusto Melo Montenegro Junior assumiu a Superintendência da Zona Franca de Manaus em março de 2026, em substituição a Bosco Saraiva, por nomeação oficial publicada no Diário Oficial da União. 

Servidor de carreira da própria Suframa, Montenegro construiu sua trajetória técnica dentro da autarquia, com atuação destacada nas áreas de projetos, inovação e políticas de desenvolvimento regional.

É graduado em Direito e Administração, possui especializações em Gestão de Projetos e Gestão de Pessoas e é mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). 

Antes de assumir o comando, ocupava a Superintendência Adjunta de Projetos, onde esteve diretamente envolvido no acompanhamento de investimentos industriais e na execução de políticas de pesquisa, desenvolvimento e inovação na Amazônia. 

Ao longo da carreira, também atuou no Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) e em áreas estratégicas ligadas à Lei de Informática, com foco na articulação entre indústria, tecnologia e bioeconomia. 

Sua nomeação sinaliza uma transição com forte caráter técnico e de continuidade institucional, em um momento de reposicionamento estratégico da Zona Franca no contexto da nova política industrial brasileira.

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